sábado, 28 de fevereiro de 2009

Richard: a Felícia da TV brasileira

Foto retirada da internet.

Sempre achei insuficiente a programação da TV brasileira voltada à questão ambiental. Por mais que o aquecimento global e a destruição da amazônia sejam constantemente noticiados, poucos programas atentam para a educação ambiental ou para a divulgação da nossa biodiversidade.

Existem algumas exceções, como o Globo Ecologia, produzido pelo Canal Futura e exibido também na Rede Globo – em horários nada nobres -, e o mais recente Selvagem ao Extremo, criado e apresentado por Richard Rasmussen desde 2005 na Rede Record. É sobre esse último que irei escrever.

Em seu programa, quadro sucesso do Domingo Espetacular, Richard visita diversos biomas pelo mundo em busca de animais bizarros e ferozes para serem capturados assim que possível. O grande trunfo deste quase-biólogo - ele largou o curso para fazer o programa – é não temer os bichos. Ele entra em frenesi com um grande réptil na mão e fica mostrando várias de suas características ao apavorado telespectador.

Até aí tudo bem, programas como esses são conhecidos há tempos na TV fechada e são importantes para mostrar nossa fauna e biomas ao brasileiro da selva de concreto. Porém, quando o Richard está no território brasileiro, ele deve seguir a legislação ambiental, sob pena dos rigores da lei. Aparentemente ele não se preocupa com isto. Parece estar acima da lei.

Explico:

Segundo o Código de Crimes Ambientais (Lei 9.605 de 1998), em seu Art. 29, constitui crime:

“Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida:

Pena - detenção de seis meses a um ano, e multa.

§ 1º Incorre nas mesmas penas:

II - quem modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural.”

E o que o Richard faz se não ‘perseguir’ e ‘apanhar’ animais silvestres? Isso que já o vi colocar a mão e modificar um ninho de anuro (sapos, rãs e pererecas), na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus, incoerentemente acompanhado por uma pesquisadora do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia).

No melhor dos cenários ele tem autorização da ‘autoridade competente’, que pode ser o IBAMA ou ICMBio (Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade, responsável pelas Unidades de Conservação da União), dependendo do caso. Mas ele não cita isso. E duvido que tenha, pois, raramente é acompanhado por fiscais, guardas florestais ou pesquisadores – e isto parece não fazer diferença.

O pior: ele não avisa para o telespectador não fazer isso. Não explica que é crime. Que o animal e a pessoa que o manipula podem se machucar, ou até mesmo morrer. Nem o famoso clichê: “Crianças, não façam isso em casa”.

Reintero: considero importantíssima a divulgação da nossa biodiversidade e o papel da TV na educação ambiental. Aliás, segundo diversos textos da lei (Política Nacional de Meio Ambiente, Política Nacional de Educação Ambiental, Código Florestal, etc.), emissoras de TV são obrigadas a reservar parte de sua programação a assuntos ambientais. Mas não é isso que o Richard faz!

No ‘Selvagem ao Extremo’ não há menção à relação ecológica e de parentesco entre os animais, só se fala de animais (já o vi passar direto por um belíssimo orquidário sem mencionar ao menos alguma das espécies que estavam floridas, dizer algo sobre a importância para a floresta ou a co-evolução com os insetos), e o comportamento normal dos animais não é mostrado, afinal, estão sempre coagidos ou presos em suas mãos.

No fundo é sensacionalismo puro. A estrela não são os animais, e sim o Richard: o ‘Selvagem ao Extremo’ que não tem nojo de sapos nem medo de cobra; que doma jacaré só com as mãos; que comete crimes em frente a câmeras de TV sem o menor pudor - incentivando desavisados.

Programas exibidos gratuitamente na televisão têm que ter um mínimo de responsabilidade. Visitando o sítio oficial do Richard percebi que ele tem alguma consciência ambiental (há notícias sobre meio ambiente, avisos sobre o comércio ilegal de animais e parceria com organizações ambientais), mas não pode ficar só nisso. Ele tem uma ferramenta importantíssima nas mãos, mas, se não for utilizada corretamente, o tiro sai pela culatra. Enquanto continuar assim Richard será a Felícia da TV brasileira, muito longe de ser o Capitão Planeta.

Um comentário:

Rosângela - discípula aprendendo... disse...

Puxa, Yure! Taí, gosto disso.
Coerência!
Valeu!