Ilustração: Millena Lízia
Quando a ciência caminhava lado a lado com a religião, grandes cientistas tinham que romper com antigos tabus. Se Galileu Galilei, pai da ciência moderna, teve importante papel na aceitação (e comprovação) das idéias de Copérnico que tirou o planeta Terra do centro do Universo, Charles Darwin, um pouco depois, tira o homem do centro da natureza.
Certamente meu escritor de divulgação científica favorito é Stephen Jay Gould (1941 – 2002), ganhando até mesmo do Richard Dawnkins, que considero meu teórico do ateísmo. Gould, era judeu de nascença e por ser um evolucionista ferrenho, era agnóstico – quem acredita que a questão da existência ou não de um poder superior não foi nem nunca será resolvida. Mas, tirando a questão espiritual de foco, o que me leva a digitar estas palavras é um ensaio, dos muitos que Gould escreveu mensalmente até sua morte, publicado no livro “Dinossauro no Palheiro: reflexões sobre história natural. Cia. Das Letras, 2005 – S. J. Gould”. Intitula-se “Caminhando pela evolução”, começa na página 305 do livro, e trata da reforma dos salões dos mamíferos fósseis no American Museum of Natural History (Museu Americano de História Natural).
Gould parte do pressuposto que as impressões do público sobre a evolução dos mamíferos – nós incuídos – são guiadas pela iconoclastia, ou seja, pelos símbolos e imagens associadas à evolução. Seriam elas, principalmente: a árvore genealógica, onde os seres supostamente mais complexos – geralmente primatas - ocupam os ramos superiores; e a figura já clássica do primata caminhando da esquerda para a direita, evoluindo e finalmente chegando como ser humano no fim da caminhada. Isso faria o público imaginar que existe uma hierarquia na natureza e que o homem tem algo em especial que faz com que nós e nossos parentes mais próximos, sejamos dignos de um lugar acima (ou à frente) dos outros seres. Essa impressão é passada mesmo em livros didáticos de zoologia dos vertebrados, onde os primatas aparecem majoritariamente nos últimos capítulos. Museus também costumam seguir essa ‘regrinha’ medíocre.
Mas não é bem assim. Qualquer espécie que surja neste pequeno planeta, e sobreviva, está plenamente adaptada ao ambiente, independentemente de sua complexidade estrutural, molecular ou psíquica. Uma bactéria, apesar da simplicidade, está tão bem como nós – algumas, inclusive, dentro de nós. Sendo assim, a classificação taxonômica dos seres vivos é feita em relação à distância temporal da última novidade adaptativa a surgir. Características mais recentes estão nos ramos superiores das árvores genealógicas, não os mais complexos ou superiores evolutivamente – conceito que não se sustenta. Esse ponto de vista, entretanto, tem o incomodo – para alguns – de colocar os primatas, humanos ou não, no meio da evolução dos mamíferos, não no final.
Nesse ensaio, Gould, se prende à evolução dos mamíferos que, em resumo, ocorreu assim (baseado no ensaio):
1 – FOSSA SINAPSÍDEA. A 250 milhões de anos, no final da era Paleozóica, um grupo de répteis desenvolveu uma abertura no crânio atrás da órbita ocular, e esta característica, chamada de fossa sinapsídea, foi preservada por seus descendentes. Todos os mamíferos a possuem (os músculos que fecham a mandíbula ligam-se ao crânio por esta abertura), inclusive esses animais, que eram considerados répteis e hoje são conhecidos como sinapsídeos. São os elos mais próximos entre dinos e mamíferos.
2 – OSSOS DO OUVIDO MÉDIO. Dois ossos do maxilar reptiliano foram reduzidos e transformados na bigorna e no martelo, ossos do ouvido médio ligados à audição (os répteis possuem apenas o estribo. Como diz um dos postulados da lei da termodinâmica: ‘na natureza nada se cria, tudo se transforma’. Assim é com a evolução.). Esse ponto é considerado crucial na distinção entre répteis e mamíferos e é averiguável no registro fóssil. Esses seres são chamados de monotremados (ornitorrinco e marsupiais).
3 – PLACENTA. O próximo passo evolutivo foi o surgimento da placenta, e a consequente gestação completa no útero da fêmea (Ornitorrincos são mamíferos que botam ovos e os marsupiais – gambás, cangurus – completam os últimos meses de gestação numa bolsa, o marsúpio). Surgiram preguiças, tamanduás e tatus, chamados de edentados, pois tem a placenta, mas não a próxima característica.
4 – ESTRIBO EM FORMA DE ESTRIBO. A próxima característica é uma perfuração no estribo, que é atravessado por um importante vaso sanguíneo e todos os mamíferos subsequentes tem esse orifício. Os animais que possuem esta característima, mas não a próxima, são os carnívoros, os roedores, os morcegos e os primatas – nós inclusos, claro.
5 – CASCOS. O próximo grupo a surgir apresenta os dedos das patas coalescentes, como cascos, e são representados hoje em dia pelos ungulados (cavalos, cabras, antílopes, girafas, etc.) e baleias (os cetáceos descendem de ungulados, mas não têm cascos pelo motivo óbvio de adaptação aquática).
6 – ÓRBITAS OCULARES PRÓXIMAS DO FOCINHO. A última característica desenvolvida pelos mamíferos são as órbitas oculares que avançaram para frente do crânio, até uma posição próxima do focinho. As espécies mais conhecidas a apresentarem esta característica são os elefantes e os peixes-boi.
É claro que, dentro de cada grupo, as espécies continuaram, e continuam, a evoluir e adquirir novas características. Muitas delas recentes. Mas a organização dos principais grupos de mamíferos segue esta pequena lista citada acima.
A grande ‘sacada conceitual’ do Museu Americano de História Natural foi organizar a visitação da ala de mamíferos fósseis seguindo os caminhos da evolução. Desta forma, o visitante, ao iniciar a visita, é convidado a conhecer os sinapsídeos, depois os monotremados, seguidos dos edentados, depois os placentários, posteriormente os carnívoros, roedores, morcegos e primatas (olha nós aê!), depois os ungulados e, finalmente, elefantes e peixes-boi. O homem foi retirado de seu pedestal de arrogância e figurou entre seus semelhantes. Pode parecer pouca coisa, visto desta forma, mas não é assim que os museus de história natural costumam ser ordenados. Geralmente os primatas e o homem estão no fim da exposição, dando impressão de serem o objetivo final da história natural. Assim como em livros e na percepção pública da evolução.
Não se trata apenas de ordenar corretamente museus e livros e aperfeiçoar o ensino de ciências, mas, acima de tudo, criar uma cultura que nos coloque entre os outros seres, não acima deles. Uma consciência que não dê tenta importância ao nosso andar bípede, polegar opositor e telencéfalo desenvolvido. A arrogância do ser humano em se sentir especial justifica o caos ambiental em que vivemos. “Crescei e multiplicai-vos”. "Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono". "Esgotem os recursos". "Consumam". "É de vocês". "É pra vocês". "O planeta é nosso, aha-uhu!"
Essa falácia - desculpem a cutucada - fundamentalmente criacionista, foi a justificativa de George W. Bush filho para não assinar o protocolo de Quioto e que muitos outros usam para derrubar a Amazônia, comprar carrões que liberam toneladas de carbono na atmosfera todo ano e destruir o ambiente, de uma forma geral. Não quero dizer que todo criacionista deseja isso, mas é esse o conceito que defendem.
Acredito piamente que, para resolvermos pacificamente esse novo paradigma ambiental, o ser humano, como principal e único responsável, deve se redimir e se posicionar ao lado das outras espécies. Não somos superiores. Não somos perfeitos. E, principalmente, precisamos da qualidade e diversidade de vida no planeta para nossa própria sobrevivência. Sob risco de não deixarmos descendentes para pensar sobre isso no futuro.